quinta-feira, 19 de junho de 2014

A Arte de morrer

Leslie Aloan, Presidente do INASE

A morte representa a finitude de um ciclo de existência, da vida. A morte não é uma doença. Simboliza o ponto final de toda uma existência. Emblematicamente encerra as aspirações de quem viveu.
O privilégio de uma morte digna geralmente é decidida pelo médico.  Este  precisa integrar conhecimento científico, jurídico na área e sensibilidade ética, para oferecer um desfecho menos  sofrido ao paciente.
Eutanásia – É uma forma de apressar a morte de um doente incurável, sem que esse sinta dor ou sofrimento. A ação é praticada por um médico com o consentimento do doente, ou da sua família. Significa provocar a morte antes da hora, de forma suave e sem dor. Ato médico que, por compaixão, abrevia diretamente a vida do paciente com a intenção de eliminar a dor. A eutanásia é um assunto muito discutido tanto na questão da bioética  quanto na do biodireito, pois ela tem dois lados .  De um lado, seria uma forma de aliviar a dor e o sofrimento de uma pessoa que se encontra num estado muito crítico e sem perspectiva de melhora, dando ao paciente o direito de dar fim a sua própria vida. Em contrapartida,  a eutanásia seria o direito ao suicídio, tendo em vista que o doente ou seu responsável teria o direito de dar fim a sua vida com a ideia de que tal ato aliviaria sua dor e sofrimento.
Muito praticada na antiguidade, por povos primitivos, a eutanásia até hoje encontra-se em debate. A palavra eutanásia deriva de "eu", que significa bem, e "thanatos", que é morte, significando boa morte, morte doce, morte sem dor nem sofrimento.
A eutanásia no Brasil é crime, trata-se de homicídio doloso que, em face da motivação    do agente, poderia ser alçado à condição de privilegiado, apenas com a redução da pena. Este é o aspecto legal, mas na prática a situação é bem diferente, pois envolve além do aspecto legal, o aspecto médico, sociológico, religioso, antropológico, entre outros. (Luíz Flávio Borges DUrso)
No Brasil, a eutanásia  é considerada homicídio, já na Holanda é permitida por lei.
O paciente terminal tem direitos como: não ser abandonado pela família, pelos amigos e pelos médicos; tratamento paliativo para amenizar seu sofrimento e dor; não ser tratado como objeto cuja vida pode ser aumentada ou prolongada segundo conveniências da família ou da equipe médica.
Outros modos de término da vida, todos ilegais, incluem:
Mistanásia (ou eutanásia social) – é a morte miserável e infeliz, fora e antes da hora. Contempla os excluídos do sistema de atendimento , as vítimas de erro médico (imprudência, imperícia, negligência), as vítimas de pesquisa antiética, tortura, etc.
Distanásia – é a prática pela qual se continua, através de meios artificiais, a vida de um enfermo incurável. Tem o objetivo terapêutico de prolongar a vida inutilmente, preocupando-se com a quantidade e não com a qualidade de vida. É o tratamento da doença e não do doente. Esta prática é comum quando o paciente é potencial doador de órgãos.
Ortotanásia – define a morte natural, sem interferência da ciência, permitindo ao paciente morte digna. Em outras palavras, é a arte de morrer bem e com dignidade. O desenvolvimento técnico - científico da medicina permite prolongar a vida, mas não deve tirar a dignidade de morrer. No entanto, isto pode ser considerado omissão de socorro.

                Portanto, aos legisladores, resta a missão de debater aspectos éticos e legais até que a sua própria hora, potencialmente, se apresente.

As 100 novas profissões em 2030

Leslie Aloan, Presidente do INASE

Em 28 de abril de 2010, a BBC publicou em seu site brasileiro uma avaliação sobre as profissões que surgirão. Achei muito interessante e partilho aqui com vocês.

Estudo mapeia mais de cem profissões do futuro
A longevidade crescente deve abrir mercado para novas profissões

Nanomédicos, cirurgiões que ampliam a memória, policiais do clima e guias turísticos espaciais estão entre as 107 profissões que estarão em alta no futuro, de acordo com o estudo "The shape of jobs to come" ("Os tipos de trabalhos que virão"), realizado pela consultoria de tendências britânica FastFuture.

Para o estudo, que faz uma análise prevendo o período de hoje a 2030, a empresa ouviu mais de 486 especialistas de 58 países, em cinco continentes.

Levando em conta fatores econômicos, políticos, sociais, demográficos, ambientais e científicos, foi elaborada uma lista que se dividia em "profissões ainda inexistentes", como policial do clima, e as que existem mas cuja demanda deve aumentar, como nanomédico.

Abaixo, dez profissões entre as consideradas mais importantes em um mundo que, segundo a pesquisa, terá que lidar diariamente com as mudanças climáticas, e onde a escassez de água e alimentos será um dos maiores problemas que a comunidade internacional terá que resolver.

O crescimento e o envelhecimento da população devem ser levados em conta. Segundo o estudo, as Nações Unidas prevêem que a população chegue a 9,1 bilhões até 2050. O envelhecimento da população vai pressionar governos, empresas e famílias. E os avanços da ciência e tecnologia vão ter um espaço maior na sociedade. As 20 profissões mais importantes, segundo o estudo, indicam uma tendência de combinar qualificações e habilidades de disciplinas diferentes.

* Policial do clima. As ações de um país podem ter impacto no clima de outro, e serão necessários profissionais que salvaguardem internacionalmente a quantidade de emissões de carvão lançada na atmosfera.

* Fabricantes de partes do corpo. A medicina regenerativa já está dando os primeiros passos. No futuro, serão necessários profissionais que combinem as qualificações médicas com conhecimentos de robótica e de engenharia.

* Nanomédicos. Avanços na nanotecnologia oferecem o potencial de uma gama de artefatos de nível sub-atômico e permitirão uma medicina muito mais personalizada, onde os remédios serão administrados no local exato onde a doença se desenvolveu.

* Farmagranjeiros. Esta profissão envolve conhecimentos farmacêuticos que permitam modificar geneticamente as plantas, de forma que possa ser produzida uma quantidade maior de alimentos, com um maior potencial proteico e terapêutico. Entre as possibilidades do futuro estão tomates que sirvam como "vacinas" ou leite "com propriedades terapêuticas".

* Geriatras. Os médicos especializados no atendimento de pacientes da terceira idade no prolongamento de uma vida ativa têm futuro garantido. E eles deverão cuidar não só do estado físico do paciente, como também de sua saúde mental   .

* Cirurgiões para o aumento da memória. É possível que, no futuro, seja possível a implantação de um chip que funcione como um disco rígido para a mente humana e seja possível armazenar nele os fatos que o ser humano não seja capaz de se lembrar. Serão necessários cirurgiões que saibam como realizar essa operação.

* Especialista em ética científica. À medida que a tecnologia e a ciência se integram mais no dia a dia por meio da nanotecnologia, do estudo das proteínas do organismo e da genética, surgirá mais polêmica sobre o possível uso maléfico de tecnologias e seu impacto social. Serão necessários profissionais com amplo conhecimento de ciência. No futuro, a pergunta a ser respondida não será apenas "É possível fazer isso?", mas também "É correto que se faça?"

* Especialista em reversão de mudanças climáticas. Haverá cada vez mais uma demanda por profissionais capazes de reverter os efeitos devastadores do fenômeno: pessoas com capacidade para aplicar soluções multidisciplinares como a construção    de guarda-sóis gigantes para desviar os raios do sol.

* Destruidor de dados pessoais. No futuro, especialistas vão se dedicar a destruir os dados pessoais e informações sensíveis de indivíduos. Elas devem ser apagadas de forma segura e definitiva para evitar serem alvo de ataques de hackers.

* Organizadores de vidas eletrônicas. A quantidade de informações disponíveis será tão grande que serão necessários profissionais especializados em organizar a vida eletrônica dos indivíduos. Entre as tarefas estarão ler e arquivar correspondência eletrônica, e garantir que um emaranhado de dados existentes esteja organizado de forma coerente.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O que é (e para que serve) o sono

(Fonte: Manual do Sono / Ortobom)


Passamos cerca de um terço de nossa vida dormindo. Dormir bem é essencial não apenas para ficarmos acordados no dia seguinte, mas para mantermo-nos saudáveis, com melhor qualidade de vida e até aumento da longevidade.
Os médicos sabem que o processo do sono é regido por um relógio biológico ajustado num ciclo de 24 horas. Os ponteiros desse mecanismo são moldados geneticamente e sua sincronia depende de fatores externos como iluminação, ruídos, odores, hábitos, tipos de colchões, vida social, etc.
Os especialistas acreditam que a principal peça dessa engrenagem é a melatonina - hormônio produzido no cérebro pela glândula pineal. Ele começa a ser secretado assim que o sol se põe, como um aviso para o organismo se preparar para "dormir".
Quando o processo tem início, a temperatura cai de 1 a 2º C e a pressão arterial também sofre uma leve queda. Daí ao primeiro cochilo é um piscar de olhos.
Em 1953, descobriu-se a existência de uma fase de sono profundo, justamente quando sonhamos. A novidade foi batizada de REM (Rapid Eyes Moviment - Movimento Rápido dos Olhos). Hoje os cientistas já sabem que o sono se divide em cinco fases, repetidas em ciclos, durante a noite.
Nosso desempenho físico e mental está diretamente ligado a uma boa noite de sono. O efeito de uma madrugada em claro é semelhante ao de uma embriaguez leve: a coordenação motora é prejudicada e a capacidade de raciocínio fica comprometida. Ou seja: sem o merecido descanso, o organismo deixa de cumprir uma série de tarefas importantíssimas.
Em estudo realizado pela Universidade de Chicago - EUA, onze pessoas com idades entre 18 e 27 anos foram impedidas de dormir mais de quatro horas durante seis dias. O efeito foi assustador. No final do período, o funcionamento do organismo delas era comparável ao de uma pessoa de mais de 60 anos. E os níveis de insulina eram semelhantes aos dos portadores de diabetes.
Em pesquisas de laboratório, ratos usados como cobaias não aguentaram mais de dez dias sem dormir. A consequência: morte por infecção generalizada.
Enquanto ficamos na cama, uma espécie de exército de reconstrução atua recuperando as "baixas" acumuladas no período em que ficamos acordados.  Isso prepara o corpo para a guerra do dia seguinte.
Durante o sono profundo, as proteínas são sintetizadas em grande escala. Isso tem o objetivo de manter ou expandir as redes de neurônios ligados à memória e ao aprendizado.
Nesse processo, o cérebro comanda a produção e a liberação de hormônios, como a melatonina e o próprio hormônio do crescimento. Este garante ao indivíduo longevidade com maior jovialidade. Também regula os níveis de outras substâncias responsáveis pela regeneração de células e cicatrização da pele.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O Juramento de Hipócrates

Leslie Aloan, presidente do INASE

Em uma pequena ilha grega do mar Egeu, de nome Kós, floresceu no século V a.C. uma escola médica, sob a inspiração de um personagem que se tornaria símbolo  de todos os médicos - Hipócrates.  Esta escola hipocrática separou a medicina da religião e da magia. Também afastou as crenças sobrenaturais como as causas das doenças e fundou os alicerces da medicina racional e científica. Além disso, deu um sentido de dignidade à profissão médica, estabelecendo as normas éticas de conduta do médico, tanto no exercício da profissão como fora dela.  
A escola hipocrática apresenta uma coleção de 72 livros, conhecida como Corpus hippocraticum. Destes existem sete livros que tratam exclusivamente da ética médica. São eles: Juramento, Da lei, Da Arte, Da Antiga Medicina, Da conduta honrada, Dos preceitos, Do médico.
O mais conhecido, Juramento, é aquele a ser proferido solenemente por todos aqueles prontos  a exercer a medicina, quando aceitos e admitidos como novos membros da classe médica. O juramento hipocrático é considerado um patrimônio da humanidade por seu elevado sentido moral e, durante séculos, tem sido repetido como um compromisso solene dos médicos.
O texto do Juramento de Hipócrates resultou de traduções de antigos e raros manuscritos. Os mais antigos manuscritos conhecidos, segundo Bernardes de Oliveira, são:
1."O manuscrito Urbinas Graecus 64 da Biblioteca Apostólica Vaticana". Está localizado entre os séculos X e XI. Suas palavras iniciais esclarecem: Texto do Juramento Hipocrático que pode ser jurado pelos cristãos. O interessante documento é escrito em forma de cruz para bem marcar o patrocínio religioso.
2. "O segundo, por ordem de antiguidade, é o manuscrito Marcianus Venetus Z 269, do século XI, pertencente à Biblioteca de S. Marcos de Veneza. O juramento aí se acha como sendo o texto original. Inicia-se com a invocação dos deuses da mitologia grega, consoante sua origem pagã".
3. "Manuscrito do século XII da Biblioteca Apostólica Vaticana: Vaticanus Graecus 276, follio 1 recto.
4. "Manuscrito do século XII da Biblioteca Nacional de Paris. "O último manuscrito citado encerra a versão pagã, com a invocação inicial dos deuses da mitologia grega e corresponde ao texto mais difundido atualmente. Os demais manuscritos conhecidos do juramento de Hipócrates são todos dos séculos XIV e XV. Embora sejam equivalentes, verificam-se pequenas diferenças de redação. O número de palavras, por exemplo, oscila de 246 a 251.

Textos abreviados do juramento têm sido utilizados, tendo em vista a extensão do texto original para leitura durante uma solenidade festiva como a da conclusão do curso médico.
A Declaração de Genebra da Associação Médica Mundial de 1948, a mais antiga e conhecida de todas, tem sido utilizada em vários países na solenidade de recepção aos novos médicos inscritos na respectiva Ordem ou Conselho de Medicina. A versão clássica em língua portuguesa tem a seguinte redação:
"Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade.
Darei como reconhecimento a meus mestres, meu respeito e minha gratidão.
Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade.
A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação.
Respeitarei os segredos a mim confiados.
Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão
médica.
Meus colegas serão meus irmãos.
Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes.
Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza.
Faço estas promessas, solene e livremente, pela minha própria honra."
Durante o século XX o progresso científico e o avanço tecnológico da medicina, aliados à evolução do pensamento e dos costumes, trouxeram novos conceitos e novos aspectos relativos à ética médica e a validade do juramento de Hipócrates passou a ser questionada, se não em seu significado simbólico, pelo menos em seu conteúdo. Surgiram, então, numerosas propostas no sentido de "atualizar" o texto do juramento. As alterações sugeridas visam, principalmente, a compatibilizá-lo com a Bioética e adaptá-lo à problemática decorrente da prática médica atual, com o objetivo de evitar a conivência dos médicos com as falhas dos atuais sistemas de saúde, sempre que houver prejuízo para os doentes, e com os interesses financeiros da indústria farmacêutica e de equipamentos médicos, que procuram influenciar a conduta do médico.

Baseado no texto do Dr. Joffre M. de Rezende ,Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da  Universidade Federal de Goiás e  Membro da Sociedade Brasileira e da Sociedade Internacional de História da Medicina.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Tabagismo em pauta



Leslie Aloan, Presidente do INASE



Como médico e Presidente de uma Instituição que atua na área de saúde, entendo que este pronunciamento contra o tabagismo é de total relevância. Transcrevo aqui a conferência do Dr. Luiz Carlos Corrêa da Silva, da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

TABAGISMO – DOENÇA QUE TEM TRATAMENTO

         O conceito do tabagismo há mais de duas décadas saiu da antiga concepção de ser um hábito, um charme social, uma forma de encontrar companhia em situações de solidão, ou mesmo uma opção para enfrentamento das demandas do dia a dia. Hoje sabe-se que o tabagismo é doença de dependência da nicotina, concorrendo também outros fatores de natureza psicológica que podem dificultar parar de fumar.
A fumaça de cigarros contém mais de 4.700 substâncias químicas, sendo 200 destas tóxicas e prejudiciais para a saúde, e 50 com forte efeito cancerígeno. O setor respiratório é o mais diretamente atingido, mas as substâncias tóxicas circulam por todo o organismo vindo a causar danos e doenças. A irritação provocada por estas substâncias danosas costuma causar um processo inflamatório e alterações celulares em diversos locais, tendo como consequência mais de cinquenta doenças graves e fatais, que se constituem nas principais causas de mortalidade humana: cardiovasculares (principalmente infarto do miocárdio), câncer (de pulmão e outros locais), derrame cerebral, e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC, mais conhecida como enfisema e bronquite crônica).
O tabagismo causa 6 milhões de mortes no mundo, anualmente, pelas doenças tabaco-relacionadas (DNCT), sendo mais de 130 mil destas mortes no Brasil. Isto configura uma verdadeira epidemia, sem dúvida o maior flagelo da humanidade, que pode ser evitado e tratado.
O auxílio de médico, especialista ou não, constitui-se num grande apoio para conseguir parar de fumar, na medida que se avaliem diversos itens do perfil do paciente. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a base do tratamento, sendo sempre da máxima importância, pois auxilia nos aspectos da dependência psicológica. Medicamentos ajudam a diminuir a síndrome de abstinência – aquelas sensações e sintomas desagradáveis causados pela privação da substância nicotina.
Uma mensagem simples e direta para ficar na memória de todos os fumantes: “se você quiser parar de fumar, vai conseguir através de um programa baseado nas suas necessidades individuais”. Procure um pneumologista!
Dr. Luiz Carlos Corrêa da Silva
Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia